Um papo com Geraldo Magela, o Ceguinho

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Um papo com Geraldo Magela, o Ceguinho

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jan,2016
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Hoje nosso papo é com Geraldo Magela, um dos maiores humoristas brasileiros, conhecido como “O Ceguinho”.
Sempre muito divertido possui vasto repertório de ótimas piadas e, como bom mineiro, “causos” divertidíssimos. Sua trajetória se confunde com uma história de superação e persistência que vale a pena conhecer.

Quem é Geraldo Magela?

Geraldo Magela criança (Arquivo pessoal)

Geraldo Magela criança (Arquivo pessoal)

Sou de uma família de 8 irmãos, sendo 5 cegos. Dos 8 sou o único que nasceu em Belo Horizonte no bairro de Venda Nova, que é um bairro tão grande que se fosse emancipado seria a segunda maior cidade de MG. Hoje com 57 anos posso dizer que sou uma pessoa vitoriosa, mas sempre pensando que posso realizar ainda mais sonhos e vontades porque quem para acaba dando marcha ré. Sou de origem simples, filho de comerciante que trabalhava com caderninho de fiado, como se fosse a prestação da época. Papai chegou a ter um comercio bem grande mas em função dos que não o pagavam, lamentavelmente acabou quebrando. Sou uma pessoa comum como qualquer outra, mesmo sendo um deficiente visual.

Já passei e ainda, por incrível que pareça, passo situações de ter que provar minha capacidade, mais do que já provei e mesmo sendo um artista consagrado e conhecido no Brasil e exterior, sinto que as pessoas não acreditam que posso fazer ainda mais, a gente tem que matar um leão a cada dia.

Quando percebeu que poderia ser um artista?

Desde pequeno eu fazia graças e imitações e as pessoas riam muito. Então sempre tive um sonho de trabalhar em rádio, porque sendo deficiente visual a gente acaba sendo direcionado, quase que automaticamente para rádio, a comunicação e até mesmo a televisão, mesmo sem ver. Eu tinha o sonho de ser comunicador e sempre fui muito persistente. Na época, ainda enxergava um pouquinho, e quando fui ver, já não estava mais “vendo” (risos). Foram muitas as portas que fecharam, estou inclusive para editar um livro com título Um cego de olho no futuro, pra falar da minha vida, mas eu quero que seja um livro bacana onde as pessoas possam dar boas risadas, se emocionarem, mas sendo um livro bem alto astral, como sou. Sempre fui muito trabalhador, vendi picolé, geladinho, ajudei minha família trabalhando, vendendo  verdura, loteria e sempre que batia numa rádio eles achavam que estava ali para pedir esmola, vender rifa, mas nunca como alguém com o sonho de ser um radialista.

Entre perceber suas habilidades e alcançar seu sucesso teve muitas dificuldades?

Entre perceber minha habilidade e conseguir o caminho foi muito duro, nas minhas palestras intituladas “um cego de olho no futuro” falo muito disso, que a pessoa que tem consciência do seu potencial não pode desistir no primeiro não, você tem que fazer de cada dificuldade um desafio para se realizar profissionalmente, que se fossem tudo flores você não teria tanto prazer ao olhar para trás e perceber que valeu a pena. Eu olho pra trás e não vejo nada (risos).
Sempre dizia que alguém iria me dar oportunidade, como acabou acontecendo quando Aldair Pinto fez uma promoção no programa dele a qual ganhei uma lata de café de 2 kg, mas que na verdade só tinha 1 kg e 250 gramas. Sempre o escutava antes de trabalhar como locutor de lojas em BH e ele me deu a oportunidade. Eu nunca imaginava que o maior nome do rádio de Minas Gerais iria, no ar, sem combinar nada antes comigo perguntar o que eu sabia fazer. Respondi que imitava, contava piada. Então ele no ar disse que se conseguisse um patrocinador iria apresentar o programa junto a ele. Aquilo pra mim veio como a oportunidade que precisava, foi quando agarrei e deu tudo certo.

Pensou em desistir alguma vez?

Já pensei em desistir muitas vezes. Tem momentos em que, por mais virtuoso que seja, e sou, a gente pensa em desistir. Pensei em ficar mesmo vendendo loteria.
Já aconteceram coisas comigo que você nem imagina como, por exemplo, minha primeira namorada, com aquele fogo todo, aquela paixão danada chegar perto de mim um dia e falar que os pais dela preferem vê-la num caixão a namorando um cego. Claro que aquilo me arrasou, arrebentou comigo ao ponto de ficar por um mês abatido e triste, mas conforme falei, graças a Deus, ao talento e ao dom que Ele me deu em todos os sentidos, rapidamente superei isso. Claro que acabei pensando que ou ela mentiu e não queria continuar o namoro ou ela realmente não servia pra mim, pois na primeira dificuldade não aguentou ao meu lado.
Quando era pequeno acontecia de pessoas na rua colocarem moeda no meu bolso. O cego antigamente era isso mesmo, pedinte. Numa ocasião, eu já tinha me tornado humorista e estava em cartaz em SP liguei para um dono de loja e fiz uma permuta, ele me daria algumas calças pra que eu pudesse sortear no teatro e fiquei de buscar na loja dele. Quando cheguei, de bengala e segurando o braço de um amigo ele gesticulou como quem diz não ter esmola. Só fiquei sabendo depois que saí e meu amigo me contou. É Claro que machuca.
Carrego cicatrizes no corpo e na alma, digo no corpo também porque sou muito ativo e até os 20 anos enxergava muito pouquinho, acredito que uns 10%. Sempre quis fazer o que as crianças faziam, então socava cabeça em parede, caia em buracos, vivia machucado, porém muito feliz.
Os machucados da alma acabam doendo em algum momento, inclusive parei de escrever meu livro porque ficava travado quando lembrava esses momentos tristes e não conseguia avançar.
Cheguei a escrever uma parte e mandei a um diretor de mercado da radio Itatiaia, Carlos Rubens Done que me disse: “peguei pensando em ler uma ou duas páginas, mas li as 14 pois me diverti muito, ri e me emocionei”.

O que acha do humor no Brasil? Acredita que as velhas receitas devem ser substituídas ou ainda tem espaço entre os jovens?

Na Escolina do Barulho, Rede Record (Arquivo pessoal)

Na Escolina do Barulho, Rede Record (Arquivo pessoal)

Acho que temos bons humoristas novos, eu sou contra a censura, acho que não deve existir, mas precisa ter bom senso, o que tá faltando a muitos humoristas novos que acham que pra fazer rir precisa falar palavrão seguidamente, pra fazer rir tem que interagir com publico de maneira agressiva. Tem humoristas novos que ao te ver com sua namorada ou esposa na plateia, canta sua esposa nas sua frente para fazer as pessoas rirem de você. As pessoas não tem que rir de você, tem que rir do humorista, afinal pagou pra rir dele e não pra ser humilhado, pra se constranger.
Em relação ao palavrão, não sou hipócrita de dizer que não falo, mas não é a todo o momento que falamos. No meu espetáculo não tem nenhum palavrão, pois pra ser irreverente não precisa ser indecente. Já fiz show pra um publico quase 100% evangélico, para 42 padres agostinianos aqui em BH, e todos riram do inicio ao fim sem se escandalizar, pois não tem apelação. O pior é que esse humor agressivo tem atrapalhado nosso mercado, pois, por exemplo, algumas empresas contratam para festas esses profissionais que geram desconforto com linguajar inapropriado, humilhando pessoas, e os departamentos de marketing das empresas não apostam mais nesse tipo de entretenimento.

Fale um pouco sobre seus ídolos.

Na Escolinha do Barulho, Rede Record (Arquivo pessoal)

Na Escolinha do Barulho, Rede Record (Arquivo pessoal)

Meu grande ídolo é Chico Anysio.
Gostaria de contar aqui 3 fatos que ocorreram comigo:
Fui fazer um teste, há muitos anos atrás, com Carlos Alberto de Nóbrega, ainda na vila Guilherme, e quando chegou minha vez o Marcelo de Nóbrega pediu aos figurantes para não rissem, só se gostassem mesmo do teste. Eu fiz minha parte e o pessoal quase se acabou de tanto rir. O Marcelo gostou muito, disse que o pai iria adorar. Porém, após isso não me ligaram mais da praça, claro que imaginei que não me chamaram porque sou cego. Depois disso, alguns anos depois, dei uma entrevista ao Jô soares, acho que na segunda das dez entrevistas que já concedi. Carlos Alberto me chamou na sala dele e disse: “Vi sua entrevista e quero te confessar uma coisa, aquela vez que fez o teste aqui, não te chamei porque achava que a critica iria pensar que estava te usando  pra fazer ibope em cima de sua deficiência, hoje vi que não tem nada a ver e gostaria de contar com você na praça”. Achei bacana ele ter confessado aquilo e participei por mais de um ano do programa.

Quando fiz parte da escolinha do barulho, parte do elenco me disse que pediam minha participação na Escolinha do Professor Raimundo, mas que, o incomparável e meu ídolo, Chico Anysio tinha algumas preocupações do tipo, quem iria me levar ao hotel? Quem iria escrever pra mim? Não o culpo, é falta de informação e isso não mancha nem um pouco o incrível profissional que foi.

O Mauricio Shermam, me chamou no programa do zorra, o qual participei 4 ou 5 vezes e numa cena que estava com a bengala ele dizia, “Magela, bata mais a bengala!” Quer dizer que tenho que ser mais cego do que já sou?

Hoje tenho um sonho, apresentar meu Talk Show, talvez o único no mundo com apresentador cego. Tenho certeza absoluta que será um sucesso. Não sei quem me dará essa oportunidade, mas quero e vou ter minha chance. Gostaria inclusive ter o direito de errar. Sim! Todos que fazem testes podem errar, mas o cego não. Se errarmos, dizem: Não falei que não dava conta.

Qual recado gostaria de deixar para seu público?

Quanto ao futuro da TV brasileira acredito que teríamos uma melhora substancial se acabasse com esse ibope minuto a minuto. É preciso tempo para que um programa se torne hábito, precisa ir lapidando até chegar numa boa fórmula. Mas o imediatismo faz com que se crie uma ansiedade e não permita esse aprimoramento. Violência, sexo chama a atenção, mas isso fere a qualidade que a TV precisa, que o telespectador precisa. As pessoas precisam aprender a cobrar essa qualidade.

Já fui casado, durante 22 anos, e tenho 2 filhos. Um é Matheus Dias, designer gráfico que usa seu talento como tatuador, um dos melhores de Minas Gerais, Dias Studio. O outro, o Victor Rodrigo, que adora esporte e me deixou muito emocionado por ser o único representante do Brasil a comentar a copa America que foi realizada no Chile num canal de televisão online chamado Arroba futebol clube.

Então é isso, meu recado é que nunca desista dos objetivos, saber que podem ter momentos em que ficará arrasado por algum motivo, mas não deixem de seguir em frente. E antes de criticar as pessoas façam uma autoanalise, pois todos erram e todos devem saber pedir perdão.

Geraldo Magela apresenta o espetáculo ‘O Melhor do Ceguinho’, em comemoração aos 25 anos de carreira, no teatro Brasil Vallourec em Belo Horizonte/MG na próxima segunda, dia 18/01/2016 às 21:00. Você pode comprar seu ingresso através do site Compre Ingressos.

#gratidao

Sobre o Autor

Author
Octavio Fernandes
Analista de Sistemas acabei extrapolando um pouco meus horizontes. Gosto de observar e analisar tudo que vejo, ouço e sinto. Acredito que a vida é muito mais que estudar, trabalhar, ganhar dinheiro... a vida é para ser curtida em todos os momentos, até nos mais difícieis! E olha que disso entendo...